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sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Viralatismo Regulatório: como a legislação brasileira desvaloriza o próprio vinho e exalta o importado

 

José Eduardo de Resende Chaves Júnior 


A regulamentação do vinho no Brasil carrega uma distorção conceitual sem precedentes no mundo, fruto de uma mentalidade que insiste em desvalorizar a produção local em prol do produto estrangeiro.

Ao atrelar a categoria "vinho fino" estritamente à espécie botânica Vitis vinifera e carimbar grande parte da viticultura nacional com o rótulo pejorativo de "vinho de mesa", a legislação criou um privilégio regulatório descabido para o mercado externo.

Enquanto em qualquer país vitivinícola a qualidade de um rótulo é medida pelo rendimento do vinhedo, pelo rigor do manejo e pela precisão da elaboração, a lei brasileira preferiu criar um atalho cartorário — um critério de nascimento, e não de mérito.

O resultado é um cenário surreal no mercado nacional:

  • A nobreza artificial do importado. Vinhos europeus e do Mercosul produzidos em massa, com foco exclusivo em volume e baixíssimo valor agregado, chegam às nossas prateleiras ostentando o carimbo legal de "vinho fino" simplesmente por serem feitos com Vitis vinifera. O consumidor paga caro por um rótulo básico achando que leva sofisticação.

  • A estigmatização da tradição local. O termo table wine ou vin de table, usado no resto do mundo apenas para classificar vinhos sem indicação geográfica, no Brasil virou sinônimo legal de "produto inferior". Isso empurra toda a viticultura familiar de uvas americanas para a margem da relevância comercial.

  • A miopia do mercado interno. Vinhos brasileiros de altíssima qualidade — produzidos com uvas nacionais, americanas ou híbridas — precisam remar contra a maré e são obrigados a estampar a denominação vira-lata de "vinho de mesa", enquanto a própria legislação abre as portas para que o vinho comum e industrial estrangeiro seja vendido como fino.

O bloqueio à identidade: uma lei que proíbe o Brasil de inventar o próprio vinho

Há aqui um dano que vai muito além da concorrência desleal no varejo. Ao rebaixar a priori tudo o que não seja vinifera europeia, a legislação interdita o próprio caminho evolutivo do vinho brasileiro. Nenhum produtor investe seriamente em pesquisa enológica, seleção clonal, controle de rendimento, extração, madeira e guarda para um produto que a lei já condenou, de saída, à categoria inferior. O teto não é agronômico nem sensorial: é normativo.

E o que se está sacrificando não é pouco. As uvas americanas e as cultivares desenvolvidas no Brasil — Isabel e Bordô, e toda a família BRS gerada pelo programa Uvas do Brasil da Embrapa — expressam um perfil aromático e uma matéria corante que não existem em lugar nenhum da Europa. 

É exatamente aquilo que a economia do vinho mais valoriza: um produto não replicável. Nenhum país constrói identidade vitivinícola imitando o hemisfério norte; constrói-a a partir daquilo que só ele tem. 

Foi assim com o Tannat no Uruguai, o Carménère no Chile, o Malbec na Argentina, o Saperavi na Geórgia. O Brasil escolheu, por lei, disputar o campeonato alheio com o time do adversário — e ainda começar perdendo de goleada.

A escala do absurdo: a lei reprova quatro quintos do próprio país

Não se trata de uma discussão sobre nichos. Segundo o Anuário do Vinho 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária, o Brasil declarou 309,75 milhões de litros de vinho em 2025, dos quais cerca de 244,7 milhões — 79% do total — saíram de categorias que envolvem uvas americanas ou híbridas. 

Mesmo descontadas as categorias mistas, a produção integralmente fora do monopólio da Vitis vinifera ainda responde por mais de 40% de tudo o que o país engarrafa.¹ 

A legislação, portanto, não rebaixa uma excentricidade regional: rebaixa a espinha dorsal da vitivinicultura nacional. Um critério de qualidade que reprova quatro quintos da produção de um país não é um critério técnico — é uma reserva de mercado às avessas, operada contra o próprio produtor nacional.

E rebaixa justamente aquilo em que somos líderes mundiais. O Brasil é o maior produtor global de vinho de mesa — campeão planetário de uma categoria que a própria lei define como de segunda classe.

 Mais ainda: o rótulo brasileiro mais exportado é um vinho de mesa. A vinícola Campestre, de Campos de Cima da Serra, produz 45 milhões de litros anuais somente do rótulo Pérgola, líder nacional em exportação internacional.

A vantagem competitiva que a lei joga fora

A escala, o custo competitivo e a aceitação internacional, portanto, já existem. O que não existe é a moldura jurídica que permita a esse imenso parque produtivo subir a escada do valor agregado.

O paradoxo fica mais agudo quando se olha para a agronomia. As cultivares americanas e híbridas adaptadas ao nosso clima entregam produtividades da ordem de 25 a 30 toneladas por hectare, várias vezes o rendimento que as viníferas europeias alcançam no mesmo ambiente subtropical úmido. 

Somem-se a isso a rusticidade, a resistência a míldio e oídio — que reduz drasticamente a dependência de defensivos — e um custo por hectare incomparavelmente menor.

Traduzindo em linguagem de mercado: o Brasil dispõe de uma base agronômica de custo baixo, alta escala e sanidade superior. Falta apenas a peça que a legislação impede de encaixar — o desenvolvimento enológico.

 Alta produtividade combinada com qualidade enológica desenvolvida sobre uva tipicamente nacional não é uma contradição; é a definição exata de vantagem competitiva estruturante. Seria a possibilidade de o Brasil oferecer ao mundo um vinho ao mesmo tempo singular (impossível de copiar) e competitivo em preço (impossível de igualar em custo). 

A lei, hoje, esteriliza os dois lados dessa equação de uma só vez.

O Brasil ficou para trás até em relação ao paradigma que copiou

O mais constrangedor é que o dogma da Vitis vinifera, que a norma brasileira sacraliza, já foi abandonado pela própria Europa. Até recentemente, apenas uvas da espécie Vitis vinifera podiam ser usadas em vinhos com denominação de origem protegida na União Europeia, ficando de fora as variedades com traços genéticos não viníferas, como as PIWI resistentes a fungos; com a atualização das regras, os Estados-membros passaram a poder utilizar também híbridos que contenham material genético de espécies de origem americana e asiática. 

A mudança veio pelo Regulamento (UE) 2021/2117, de 2 de dezembro de 2021, e não ficou no papel: a Voltis — híbrida interespecífica que carrega DNA de Vitis berlandieri, rupestris e muscadinia — foi aprovada pelo INAO e incorporada ao caderno de encargos da AOC Champagne, publicado no Journal Officiel em dezembro de 2022, tornando-se a primeira uva resistente interespecífica admitida em uma denominação de origem controlada francesa.

Ou seja, enquanto Champagne — o mais ciumento guardião de tradição do planeta — reescreve suas regras para abrigar uma uva com sangue americano, o Brasil mantém intocada uma legislação que trata suas próprias uvas americanas como cidadãs de segunda classe. Copiamos o purismo europeu justamente quando a Europa o descartou. 

É o viralatismo em sua forma mais pura: reverenciar um dogma que o próprio dono já jogou fora.

Conclusão

Perpetuar uma lei que concede chancelas de sofisticação automáticas ao vinho importado comum, enquanto apequena a história da viticultura nacional, desqualifica quatro quintos da nossa produção e bloqueia o desenvolvimento de um produto genuinamente brasileiro, não é apenas um erro de mercado — é a expressão máxima do nosso viralatismo regulatório.

Já passou da hora de o Brasil parar de usar a própria legislação para reverenciar o produto de fora e construir um modelo de classificação soberano, justo e pautado pela verdadeira qualidade do que se coloca na taça. A régua deve ser o rendimento do vinhedo, o manejo e a elaboração — nunca a certidão de nascimento botânica da uva.




¹ O anuário distribui a produção em categorias: "Americana" (53,2 milhões de litros), "Americana ou Híbrida" (74,8 milhões), "Híbrida" (2,1 milhões) e "Vinífera/Americana ou Híbrida" (114,6 milhões), que somadas alcançam os 244,7 milhões de litros, equivalentes a 79% da produção declarada. 

As três primeiras — integralmente fora do monopólio da vinifera — totalizam 130,1 milhões de litros, cerca de 42% do total.

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