por
José Eduardo de Resende Chaves Júnior
A crítica de José Ortega y Gasset ao “sábio-ignorante” parte de uma intuição aparentemente paradoxal, mas profundamente reveladora. Para ele, o “sábio-ignorante” é o tipo humano característico da modernidade: alguém altamente competente em um domínio restrito do saber, mas que, justamente por isso, perde a consciência dos limites de sua própria competência.
Não se
trata de ignorância no sentido comum, mas de uma ignorância afetada — aquela
que se ignora como tal. O especialista moderno, ao dominar um fragmento do
conhecimento, passa a comportar-se como se sua autoridade se estendesse ao
todo. É essa combinação de saber parcial e pretensão de totalidade que define,
para Ortega, essa figura inquietante.
A crítica
de Ortega costuma ser lida, à primeira vista, como uma reação ao avanço da
especialização e da técnica. Mas essa leitura é insuficiente. Ortega não é um
pensador que rejeita a técnica — ao contrário, ele a compreende como algo
constitutivo do próprio humano.
Em Meditación
de la técnica, a ideia é clara: o homem não possui uma natureza dada;
ele a fabrica. A técnica não é um acréscimo externo, mas a própria condição
de possibilidade da vida humana. Nesse ponto, sua posição se afasta
sensivelmente da desconfiança existencial de Miguel de Unamuno, para
quem a técnica poderia esvaziar a dimensão trágica e inquieta da existência.
Essa
diferença é decisiva para atualizar o diagnóstico orteguiano no contexto
contemporâneo da inteligência artificial. Se a técnica é nossa “nova natureza”,
então a IA não pode ser tratada como uma intrusão alienígena, mas como um
desenvolvimento extremo de algo que sempre fomos. Ferramentas como ChatGPT ou
Gemini não representam uma ruptura absoluta, mas uma intensificação da
capacidade humana de produzir mediações, atalhos e próteses cognitivas.
O
problema, portanto, não está na técnica em si. Ortega nunca sugeriu que o
avanço técnico fosse um erro. O que ele denuncia é outra coisa: a perda de
um eixo vital capaz de orientar o uso da técnica. O “sábio-ignorante” não é
simplesmente o especialista que sabe muito de pouco; é aquele que, ao dominar
um fragmento do saber, perde a consciência dos limites desse domínio e passa a
operar como se sua competência fosse universal. Trata-se menos de uma
deficiência cognitiva e mais de uma falha existencial.
Quando
transportamos essa crítica para o presente, percebemos que a figura descrita
por Ortega não desapareceu — ela se transformou. A inteligência artificial não
elimina o “sábio-ignorante”; ao contrário, ela o amplifica e o difunde. Hoje,
já não se trata apenas do especialista enclausurado em sua disciplina, mas de
um sujeito que transita por múltiplos campos apoiado por sistemas que produzem
respostas plausíveis em escala. A autoridade, que antes derivava de um saber
efetivamente conquistado, passa a ser mediada por interfaces que condensam e
redistribuem conhecimento.
Nesse
novo cenário, emerge uma figura distinta: não mais o especialista estreito, mas
o usuário funcional de sistemas inteligentes. Esse sujeito não domina
profundamente os conteúdos com os quais lida, mas também não é simplesmente
ignorante. Ele opera em um regime de competência delegada, em que saber não
significa mais compreender, mas saber acessar, formular e mobilizar respostas.
Há, aqui, uma mudança silenciosa, porém profunda: o conhecimento deixa de ser
uma conquista interior e passa a ser uma operação externa.
É
precisamente nesse ponto que uma leitura inspirada em Marshall McLuhan
se torna decisiva. Ao afirmar que “o meio é a mensagem”, McLuhan nos
alerta para algo que frequentemente passa despercebido no entusiasmo com a IA,
ou seja, o alerta, que sempre ressaltamos, da primeira lei de Kranzberg
de que essas ferramentas não são neutras. Elas não apenas transmitem conteúdos;
elas moldam as formas de percepção, de pensamento e de decisão.
O uso
ingênuo da inteligência artificial tende a ignorar que cada sistema carrega
consigo uma arquitetura, um conjunto de prioridades e, sobretudo, uma inserção
concreta em ecossistemas econômicos e políticos.
Assim,
recorrer a sistemas desenvolvidos por empresas como OpenAI, Google ou Microsoft
não significa apenas acessar uma ferramenta técnica sofisticada. Significa
também, ainda que de modo indireto, operar dentro de uma determinada gramática
de produção de sentido — uma gramática que pode refletir vieses, estratégias
comerciais, modelos de negócio e até orientações geopolíticas.
Isso não
implica uma condenação simplista ou tecnofóbica. Seria um equívoco substituir a
ingenuidade pelo alarmismo. A questão é mais sutil: trata-se de reconhecer que
a mediação técnica não é transparente. Quando um usuário formula uma pergunta e
recebe uma resposta fluida, coerente e persuasiva, há uma tendência a tomar
esse resultado como um espelho neutro do conhecimento disponível. No entanto, o
que se apresenta ali é sempre uma construção — estatística, linguística,
econômica, política e institucionalmente situada.
Nesse
sentido, a figura do “sábio-ignorante” ganha uma nova camada. Já não se trata
apenas daquele que desconhece os limites do próprio saber, mas daquele que
desconhece também os limites — e as inclinações — dos instrumentos que utiliza.
Ele confia na resposta não apenas porque ela parece correta, mas porque ignora
as condições de sua produção.
A
crítica, portanto, precisa ser deslocada. Não basta perguntar se sabemos o
suficiente; é preciso perguntar como aquilo que sabemos está sendo mediado.
E, mais ainda, quais estruturas de poder, interesse e racionalidade estão
implicadas nessa mediação.
Essa
mediação é especialmente delicada porque a IA opera com uma eficácia que tende
a desarmar a suspeita. Diferentemente de tecnologias mais visíveis, ela se
apresenta sob a forma de linguagem — isto é, no mesmo ‘meio’ em que
tradicionalmente exercemos o pensamento. Isso cria uma zona de indistinção
entre elaboração própria e resposta assistida, entre compreensão e
reconhecimento de padrões.
Retomando
Ortega, poderíamos dizer que o risco contemporâneo não é apenas a perda de uma
cultura geral ou a hipertrofia da especialização. É a formação de um sujeito
que, ao mesmo tempo em que dispõe de instrumentos poderosos, deixa de
interrogar as condições de possibilidade do próprio saber. Um sujeito que opera
com fluidez, mas sem reflexividade.
E, ainda
assim, seria um erro concluir que a solução está em rejeitar ou minimizar o uso
da IA. Isso contrariaria o próprio espírito orteguiano. A técnica, sendo
constitutiva do humano, não pode ser abandonada — ela deve ser assumida com
lucidez. O desafio não é menos técnica, mas mais consciência sobre a técnica.
Em termos
práticos, isso implica recuperar uma atitude crítica que não se confunde com
desconfiança sistemática, mas com vigilância intelectual. Significa usar esses
sistemas, mas sem abdicar da tarefa de interrogar seus pressupostos, limites e
efeitos — até mesmo os de seus controladores —, já que essa tecnologia não
emerge ex nihilo, mas de um emaranhado de poderes e interesses
econômicos e geopolíticos.
Ao fim, a
questão retorna a Ortega, na perspectiva de que a vida humana é sempre um
projeto. A técnica amplia as possibilidades desse projeto, mas não o substitui.
Quando deixamos de decidir o que fazer com essas possibilidades, corremos o
risco de nos tornar não apenas “sábios-ignorantes”, mas algo ainda mais
inquietante, somos reduzidos a agentes de um saber que não compreendemos e de
finalidades que não escolhemos inteiramente.
Nota
de Transparência
Este
texto foi elaborado pelo autor com o apoio de sistemas cruzados de Inteligência
Artificial Generativa, utilizados como instrumentos de processamento
linguístico, organização argumentativa e apoio à síntese bibliográfica. A
intervenção da IA ocorreu sob direção intelectual contínua e deliberada do
autor, a quem pertencem integralmente a concepção, a estrutura argumentativa e
as teses desenvolvidas.
A
articulação entre o pensamento de José Ortega y Gasset e Marshall McLuhan, bem
como a interpretação das relações entre técnica, existência e mediação do
conhecimento, constituem contribuições autorais. A IA foi empregada como meio
auxiliar de expressão e exploração textual, não como fonte autônoma de
pensamento crítico.
A própria
inclusão desta nota deixa de ser um gesto meramente formal para assumir um
papel conceitual. Ela não está à margem do texto — ela o prolonga. Ao
explicitar o uso de modelos de linguagem, o autor reinsere no horizonte da
leitura aquilo que frequentemente permanece invisível, qual seja, o fato de que
o discurso contemporâneo emerge de uma rede de mediações técnicas.
Essa
transparência é, portanto, também um gesto crítico. Ao mesmo tempo em que
reconhece a mediação, o texto reafirma a responsabilidade intelectual humana,
recusando a dissolução da autoria na técnica. Em termos orteguianos, trata-se
de evitar que a prótese cognitiva se converta em substituto do projeto vital.
Nesse
ponto, a reflexão dialoga com o debate mais amplo sobre a chamada “morte do
autor”, tal como formulado por Roland Barthes, e retomado criticamente pelo
próprio autor em texto anterior. Se, por um lado, a circulação ampliada de
signos e a mediação técnica tendem a deslocar a centralidade da autoria
individual, por outro, a era da IA recoloca a questão em novos termos,
porquanto não se trata apenas da dissolução do autor no texto, mas de sua
possível diluição em sistemas algorítmicos que capturam, reorganizam e
redistribuem a produção simbólica.
Diante
disso, a transparência assume também uma dimensão política e econômica. Ao
explicitar o uso de IA, o autor sinaliza consciência sobre os processos de
captura, mediação e eventual retribuição envolvidos na produção contemporânea
de conhecimento — tema desenvolvido em seu ensaio anterior sobre autoria na era
digital. A autoria, aqui, não desaparece; ela se reconfigura sob tensão,
exigindo novas formas de reconhecimento e responsabilidade.
Assim, a
nota de transparência não apenas informa — ela exemplifica. Ela mostra que, na
era da inteligência artificial, pensar implica também pensar as condições
técnicas, econômicas e simbólicas do próprio pensamento. E, ao fazê-lo,
reafirma um ponto essencial: mesmo quando o meio parece pensar por nós,
permanece aberta — e intransferível — a tarefa de decidir o que fazer com esse
pensamento.

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