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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O SIMULACRO e a IA: Em Platão, Baudrilard e Deleuze

 história do simulacro é, em larga medida, a história da nossa relação com o real.

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Em texto anterior discutimos o mito de Thamus, na diálogo Fedro, de Platão, em que a escrita é concebida como um presente do sofista, que vai contribuir com a perda da memória e do potencial cognitivo da humanidade.

Em Platão, o problema do simulacro surge como uma questão de ordem e hierarquia. O mundo sensível já é uma cópia imperfeita do mundo das Ideias. Há o modelo — a essência — e há as imagens. Algumas reproduzem fielmente; outras distorcem. Estas últimas são os simulacros. Não são apenas cópias ruins: são ameaças à distinção entre verdade e aparência. O sofista, produtor de simulacros discursivos, torna-se figura perigosa porque dissolve o critério que sustenta a cidade. Pensar, nesse contexto, é preservar o vínculo com o original.

Séculos depois, Gilles Deleuze retorna a Platão para inverter essa lógica. Para ele, o erro não estava no simulacro, mas na própria ideia de modelo transcendental. A hierarquia entre original e cópia seria uma ficção metafísica. Não há um ponto fixo a partir do qual as imagens se degradam. O que existe é um campo de diferenças que se produzem e se transformam.

O simulacro, então, deixa de ser falsificação. Ele torna-se potência. Já não representa algo anterior; ele cria. Em vez de repetição do Mesmo — a reprodução de uma identidade — temos repetição da diferença. Cada repetição é deslocamento, variação, invenção. O real não é um molde estável; é um processo.

No próprio século XX, porém, a análise toma outro rumo. Em Jean Baudrillard, o simulacro não é reabilitado, mas radicalizado. A sociedade contemporânea, saturada de mídias e signos, já não opera sob o regime da representação. As imagens não refletem o real nem o distorcem — elas o substituem. Surge a hiper-realidade: um mundo em que os signos circulam sem referência.

O exemplo clássico é Disneyland. O parque simula um universo imaginário para reforçar a crença de que fora dele haveria um real autêntico. Mas tudo já funciona como encenação. O simulacro, aqui, não é criador; é implosivo. Ele dissolve a própria diferença entre verdadeiro e falso. Não há modelo, mas também não há diferença afirmativa. Há apenas reprodução infinita de signos que remetem a outros signos.

É nesse ponto que a Inteligência Artificial se insere como problema filosófico decisivo.

Os sistemas generativos não copiam um original singular, como no esquema platônico. Eles não operam a partir de uma essência a ser preservada. Tampouco produzem apenas distorções conscientes. Trabalham com padrões, probabilidades, séries estatísticas. Em certo sentido, realizam a intuição deleuziana de que não há modelo transcendental. Produzem variações.

Mas o risco é evidente. Se a IA for treinada apenas para otimizar padrões dominantes, para reforçar estilos consagrados, para maximizar previsibilidade e engajamento, ela se tornará uma máquina de repetição do Mesmo. Uma fábrica de reconhecimento confortável. Nesse caso, não teremos criação, mas reforço do já dado.

O outro risco é o baudrillardiano. A proliferação de conteúdos indistinguíveis do real pode gerar um ambiente de hiper-realidade algorítmica, onde a origem se torna irrelevante e a circulação vale mais que o sentido. Um mundo saturado de simulacros autônomos, operacionais, mas vazios de diferença efetiva.

Entre a cópia platônica e o simulacro implosivo de Baudrillard, a alternativa mais fértil talvez seja a repetição da diferença pura, no sentido deleuziano. Isso implica desenvolver IA que não apenas reproduza médias estatísticas nem consolide consensos invisíveis, mas que introduza variação real, abertura, deslocamento. Que explore o virtual contido nos dados sem se limitar ao que já foi dominante neles.

Uma IA orientada pela repetição da diferença não seria mera imitadora de estilos humanos, nem produtora automática de hiper-realidades indiferenciadas. Seria um dispositivo de invenção, capaz de gerar novas conexões, novas perspectivas, novos modos de ver e pensar — sem apagar a responsabilidade humana por sua direção e seus efeitos.

O desafio, portanto, não é expulsar os simulacros, como queria Platão, nem celebrar indiscriminadamente sua proliferação. É decidir que tipo de repetição queremos automatizar.

Se a técnica vai repetir algo em escala planetária, que não seja o Mesmo. Que não seja a cópia servil de um modelo perdido, nem a circulação infinita de signos sem referência. Que seja a repetição que produz diferença — e, com ela, a possibilidade de um real ainda por vir.

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