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sábado, 14 de março de 2026

O CREPÚSCULO DAS PLATAFORAMAS

 

                       Por José Eduardo de Resende Chaves Júnior

 

Se você sente que a internet "piorou", você não está sozinho — e não é apenas saudosismo. Os resultados de busca do Google estão repletos de anúncios e spam de IA; o feed do Instagram prioriza vídeos de desconhecidos em vez de seus amigos; e a Amazon parece mais um catálogo de produtos genéricos do que uma loja de confiança.

 

Em seu livro mais recente, "Enshittification", o autor e ativista Cory Doctorow dá nome a esse fenômeno e, mais importante, explica que ele não é um acidente tecnológico, mas uma escolha política.

 

O Ciclo da Decadência

A "merdificação" (tradução livre para o termo de Doctorow) segue um roteiro cruelmente eficiente em três estágios:

 

  1. Sedução do Usuário: No início, as plataformas oferecem serviços incríveis abaixo do custo para atrair uma base massiva.

 

  1. Cativeiro do Fornecedor: Com os usuários "presos", a plataforma atrai vendedores e criadores de conteúdo, prometendo-lhes acesso a esse público.

 

  1. Extração Total: Uma vez que ambos os lados dependem da plataforma, ela passa a abusar de todos. Ela retém o lucro dos vendedores, degrada a experiência do usuário com anúncios excessivos e desvia todo o valor para seus acionistas.

 

Por que as plataformas ficaram tão ousadas?

Doctorow argumenta que chegamos a este ponto devido a duas decisões sistêmicas:

 

  • A Erosão do Antitruste: Permitimos que gigantes comprassem qualquer concorrente potencial. Sem medo de que o usuário mude para uma rede melhor, as empresas não têm incentivo para manter a qualidade.

 

  • A Morte da Interoperabilidade: Hoje, sair de uma plataforma significa perder suas fotos, seus contatos e seu histórico. As leis de "propriedade intelectual" foram distorcidas para impedir que novas ferramentas permitissem ao usuário migrar seus dados de forma simples.

 

Desfazendo o Nó

A boa notícia de Doctorow é que, se o problema foi criado por decisões humanas, ele pode ser desfeito por elas. A solução não é o "boicote individual", nem tecnofobia, muito menos obscurantismo tecnológico, mas a mudança na arquitetura do data power:

 

  1. Interoperabilidade Adversária: Devemos ter o direito legal de criar ferramentas que se conectem às plataformas existentes. Imagine poder ler as mensagens do WhatsApp dentro de um aplicativo de sua escolha, sem ser rastreado pela Meta. Isso destrói os "muros" que nos mantêm reféns.

 

  1. Separação Estrutural: Uma empresa que é dona do "mercado" (como a App Store ou a Amazon) não deveria poder vender seus próprios produtos dentro dele, competindo deslealmente contra quem depende de sua infraestrutura.

 

  1. Direito ao Autoconserto Digital: Precisamos de leis que protejam quem cria bloqueadores de anúncios e ferramentas de privacidade, em vez de leis que protejam o modelo de negócio abusivo das Big Techs.

 

 
A Enshittification não é o destino inevitável da tecnologia; é o resultado de um mercado sem regras. O livro de Doctorow é um chamado às armas para que paremos de tentar "consertar os algoritmos" e comecemos a consertar o mercado.

 

A internet só voltará a ser boa quando as plataformas tiverem mais medo de perder seus usuários do que os usuários têm medo de perder suas redes.

 

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