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segunda-feira, 18 de maio de 2026

A Sobrenatureza Humana e o Falso Dilema da Inteligência Artificial

 Pepe Chaves




A tecnofobia contemporânea ressuscitou um falso dilema que opõe, de forma artificial, a tecnologia e o ser humano. Essa visão dicotômica, que mais parece saída de um roteiro ingênuo de Star Trek, ignora o que o filósofo José Ortega y Gasset já havia superado no século passado: a tecnologia é, em sua essência, uma "sobrenatureza" do próprio ser humano. 

Ela não é um elemento externo que nos ameaça, mas uma extensão da nossa própria capacidade de existir e transformar o mundo. Insistir no discurso de que a Inteligência Artificial (IA) é "coisa de preguiçoso" não passa de um passaporte para o obscurantismo tecnológico.

Para compreender o avanço dessa sobrenatureza, contudo, é preciso desmistificar a narrativa do herói empreendedor solitário. Como bem demonstra a economista Mariana Mazzucato, a tecnologia de ponta não existiria sem o papel indutor e o financiamento do Estado. 

O caso da Apple é emblemático: a gigante do Vale do Silício essencialmente mercantilizou e internalizou inovações — do GPS às telas touchscreen — que foram desenvolvidas por cientistas custeados pelo Estado norte-americano. A inovação tecnológica, portanto, nasce de um esforço coletivo e público.

Diante disso, o verdadeiro potencial da Inteligência Artificial não reside na supressão do trabalho, mas na potencialização da capacidade individual de cada ser humano. 

O mercado financeiro de curto prazo, em sua miopia característica, premia e valoriza ações de empresas cujos CEOs celebram o corte massivo de cabeças. É uma lógica burra. O "gado" que corre atrás dessa tendência fatalmente perderá dinheiro no médio e longo prazo.

O X da questão: As empresas que realmente vão se diferenciar no mercado do futuro são aquelas que entenderem que o maior patrimônio intangível de uma organização é o potencial dos seus trabalhadores. Quem perceber isso antes, sairá na frente. A IA deve servir para amplificar o talento humano, e não para substituí-lo.

Humanos potencializados pela IA serão capazes de desenvolver a humanidade em um ritmo muito mais acelerado, encontrando soluções rápidas para os nossos problemas mais complexos. No entanto, para que esse futuro se concretize, há uma batalha política e ideológica a ser travada.

Não podemos permitir que o direcionamento da IA fique restrito aos interesses exclusivos das "7 Magníficas" (as grandes corporações de tecnologia), e muito menos engolir a ideologia de figuras como Donald Trump, que pregam que a regulação inibe a inovação. Afinal, cabe a pergunta: "Inovação para quem, cara pálida?"

A regulação humana é fundamental para garantir que a tecnologia sirva à sociedade que a financiou desde a base, e não apenas ao topo da pirâmide corporativa.

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